domingo, 5 de agosto de 2012


Esperança

Hoje acordei um pouco igual, sim igual, seria legal aquelas manhãs que eu acordava diferente, que agradecia por mais um dia, que parava para apreciar flores, passarinhos, astros, animais, crianças ou mesmo uma pintura profunda em um tecido qualquer. Coisa boba de se falar aqui, acho que todo mundo tem dias assim, mas pra mim isso é realmente algo fora do comum.
Vivo em um quarto frio, escuro e úmido, realmente eu não tenho recordações de como vim parar aqui. Aos 9 já havia experimentado minha primeira tentativa de encontro com a morte, mas ela não gosta de gente covarde, não iria gostar de crianças que já nascem derrotadas. Mas não pense que sou um fracasso, não faço parte das estatísticas, sou até bem sucedida, não posso reclamar muito. Meu pecado e castigo tem um nome. Esperança; então falarei francamente com vc amor, sobre o que é realmente a esperança.

Talvez um dia, ao ler isso vc compreenda meus atos falhos ou a falta deles, eu esperava mais de vc, apenas isso.

Ô sentimentozinho safado; a esperança é o pior sentimento que podemos nos agarrar para sobreviver, ela alimenta um resto de vida, só que marinado em dores piores que o parto. Cada dia e como se arrancasse-mos um dente com chave de fenda. Para aliviar a "pressão" diária de sonharmos com a cura do câncer de um filho que mal respira, com a chegada inesperada do marido voltando da guerra, com o tão sonhado encontro com a mãe que um dia nos abandonou, com a redenção de um amor rebelde, com a conscientização do marido que chega todos os dias bêbado e bate nas crianças, com um sorriso torto e sem jeito daquela mulher que tanto sonhei, chegando sem graça, colocando as malas no chão e pedindo para conversarmos um pouco sobre tudo; daquelas conversas que acabam na cama e depois a gente ajeitando juntas as gavetas e pensando em algo não muito claro ainda pro futuro, mas algo sincero.
Pois sim, nasci sem chão, acho que meu primeiro choro não foi de emoção por conhecer o mundo externo ou de medo em desvenda-lo, chorei, chorei muito sim, mas foi de tristeza, sempre fui triste, o que me mantem existindo ainda é a maldita esperança,
E quando falo maldita... queria que vcs pudessem expia-la sem se contaminarem, é maldita mesmo, daquelas que se passa a noite nervoso a espera de um telefonema que vc sabe claramente que jamais acontecerá, ele não vai te ligar depois da mensagem rude que você mandou, na verdade ele sabe que tudo que ali contem é real e ele não teria argumentos para surpreende-lo. Ou ainda aquela sensação idiota de que o ônibus dela irá parar derrepentemente e que ela irá descer correndo e chorando, agarrar teu pescoço e dizer que só precisa ficar mais um dia, que só quer mais um beijo ou mais, que vai ficar pra sempre ou ao menos é realmente isso que ela sempre quis. Em fim, esperança, ou seja, algo que vc está careca de saber que não existe, que é fruto de sua imaginação torta, que não tem a mínima possibilidade de acontecer a não ser em teu mundinho de sonhos, mas que vc ainda espera; tipo aquela sensação que temos em um velório quando olhamos a carinha firme , mas tranquila daqueles se foram, um semblante que as vezes parece até sorrir de tudo como uma piada boba, aquela sensação que temos de que a pessoa irá se levantar rindo alto e apontando os amigos chocados, apenas uma brincadeira de mau gosto, ou ainda aquele sentimento frio que temos quando chegamos em casa após o enterro e a campainha toca sem motivo aparente, a gente levanta devagar e vai abrir a porta em paços débeis, mas no fundo, no fundinho a tal esperança está lá de que é a pessoa que deixamos pra traz, só que com outra toupa, chegando de férias como se não soubesse nada do que ocorrera, como se tivéssemos enterrado alguém muito parecido, um engano.
Na mitologia pandora, muito curiosa foi ver o que havia oculto e vedado no jarro que Zeus coloca-ra sobre sua guarda, ou sobre a caixa, como as pessoas costumam dizer, ao olhar o que tinha dentro ela se deparou com todos os males do mundo, todo o seu conteúdo, exceto um item, foi liberado para a humanidade. O item remanescente foi a  esperança.
Hoje em dia, abrir uma "caixa de Pandora" significa criar um mal que não pode ser desfeito.
Talvez eu tenha permitido isso a nós, me doei demais, fui fundo demais, vc estava ainda na superfície, eu preparei tudo, lutei sozinha, não lhe dei espaço para me ajudar, queria te dar tudo pronto, era maravilhoso demais enxergar uma luz após longos anos no escuro, uma luz que era mais intensa quando vc sorria. Ainda sinto tua falta tá, estava enciumada quando lhe mandei tantas mensagens falando o que eu sinto ou acho ser a nossa realidade, na verdade o que eu queria era poder estar a teu lado e receber aquele abraço gostoso que vc sempre me dá quando chega, com tanta saudade e com tanta gana.
Te desejo uma boa noite amor, sei que já acabou faz tempo, mas ainda rezo a Deus e ainda tenho esperanças de ter me enganado com vc.

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